O ar de sobriedade que adotam os apreciadores da cachaça antes de
beber parece até contraditório. Antes de tomar, é obrigatório despejar
um pouco da bebida no chão e anunciar: "pro santo". Mas a contradição se
desfaz quando se investiga a fundo a origem dessa tradição tão
brasileira.
"O gesto de jogar um pouco da bebida no chão, antes de beber, nasceu num
ritual chamado Libação, criado por gregos e romanos, e consistia em uma
oferenda aos deuses para que eles provessem os lares de felicidade,
harmonia e fartura", explica o jornalista Edson Borges, autor de uma
vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões. Borges conta que a oferenda passou a ser praticada no Brasil graças à
influência dos colonizadores portugueses. "No século XVII, eles chegaram
ao Recôncavo Baiano, juntamente com os jesuítas, que acabaram por
dominar o cultivo da cana-de-açúcar. Além de produzir o açúcar,
inventaram a aguardente." A bebida teve o consumo imposto aos escravos, para combater o frio nos
canaviais, durante o inverno, e até como estimulante para os negros
considerados pouco produtivos, ou ainda quando adoeciam. "Com essa imposição de consumo da cachaça pelos negros, os portugueses
também impuseram São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro da
aguardente, fazendo nascer daí uma relação bem mais ampla dos negros com
o santo siciliano, a ponto de surgirem irmandades na Bahia", explica o
jornalista e pesquisador. Além da ligação com a religião católica, a aguardente também passou a
ser usada em oferendas nas religiões de matrizes africanas,
principalmente no candomblé. A finalidade era semelhante à da Libação:
pedir proteção aos Orixás. Essa identidade cultural e religiosa da aguardente gerou todo um
folclore em torno da bebida. Há orações para bebedores, apelidos (como
"urina de santo", "aquela que matou o guarda", "água que passarinho não
bebe") e rituais, como o de fazer a cara feia, depois de beber a
cachaça. "Para espantar o diabo", ensina Borges.
Fonte: Redação Terra
Nenhum comentário:
Postar um comentário